Father, where's my gun?
Now that the war has begun
Oh let me go it alone
I need no one
I said I need no one
Talvez, se houvesse a possibilidade dele sentar e descansar, G. pensaria em como nunca tinha corrido tanto em sua vida. Mas não havia mais possibilidade para isso.
30.3.10
colors die many times before their death.
Ele joga a moeda para o alto e quando o pequeno metal cai na mesa encardida, Ele o tapa com a mão esquerda, abafando o tintilar e mostrando dedos nodosos e unhas mal cuidadas. Nesse meio tempo, Ela apoiou-se com os cotovelos sobre a mesma mesa e fechou os olhos, pensando se não era melhor terem ido ao cinema ou ficado cada um em sua casa, pelo menos dessa maneira poderia ser evitado o que estava por vir.
4.1.10
O buraco. 2
-Não. Não existe essa possibilidade.
-Mas...
-Não.
...
Uma catedral feita inteiramente de vidros e mosaicos com certeza não é um local ruim de morrer. A iluminação hiperrefletida que a construção proporcionava através da luz do Sol tornava aquele ambiente onírico, e como uma mágica milenar presente na atmosfera, pequenos cristais imaginários de luz brilhavam e brilhavam, mini-sóis particulares daquela construção que transcendia a noção terrena. O ar mantinha um aroma de miosótis, lavanda e oliveiras, e pequenas flores vermelhas se espalhavam pelas paredes e chão ao redor do altar. O casal sorria pra ele, dois jovens sorridentes, sorrisos brancos como papel, cabelos bagunçados, tranças infantilmente feitas no cabelo da menor, uma garota de uns 10 anos, cabelos lisos como a maré, negros como um corvo selvagem, e um vestido rendado simples, ridiculamente simples, pano vagabundo e manchado de café, laços de cetim, sapatilhas de couro, mas apesar da modéstia, aquele conjunto caia nela como um vestido de gala para uma valsa com o príncipe das histórias de fadas. O jovem, nove anos mais velho, a personificação não-certa do príncipe encantado, cabelos loiros e sujos, piscava com um sorriso sarcástico, mostrando olhos azuis e dentes alinhados. Uma camisa branca e um jaleco de couro preto caiam sobre seu tronco pequeno, ombros curtos, braços finos. A calça de algodão prendia firmemente as pernas magras, destacando mais do que deveria os joelhos nodosos e o tênis vermelho que ele usava.
Entretanto, nada disso, absolutamente nada, alterava o estado de espírito do homem que os observava em frente ao altar. Seus olhos vagos não refletiam a extrema e exagerada iluminação daquele local, buracos negros de solidão, seu cabelo e suas roupas sociais encardidas não balançavam com a brisa marítima que invadia a catedral, sua boca seca e branca não mostrava o sorriso daquelas crianças, seu corpo, surrado como um saco de lixo, não acompanhava o ritmo daquele local. A única coisa que se mexia eram suas mãos, esqueléticas e apáticas em contraste com as mangas do terno cinza, como um molusco asqueroso saindo de sua concha. Molusco esse que não parava de tremer, mas não de frio noturno, não de um beijo de amor, não de uma morte inesperada. Tremia por não ter outra opção.
Pequenas flores vermelhas se espalhavam pelas paredes e chão ao redor do altar. Flores pequenas, grandes, pontuais, gigantes, disformes. Com o cessar do Sol, os cristais de luz desapareceram, o ar parou de rondar a construção, o aroma doce se dissolveu naquele cheiro amargo, grotesco e pesado que ele conhecia muito bem. Vinha daquelas flores vermelhas do altar. Flores disformes, grudentas, liquidas, solidificadas, escarlates, pedaços de sangue, vísceras e carne podre espalhados por todos os lados ao redor dos dois jovens. O homem se aproximou dos dois corpos, ainda com o revolver em sua trêmula mão. Tocou os dois buracos que fez bem no meio do tórax deles, dois buracos de carne vermelha, sangue resfriado e ossos espatifados. Meteu a mão dentro da caixa torácica da garota, remexeu, girou, tateou como quem procura uma meia da sorte no fundo da gaveta de roupas, e arrancou num gesto bruto o coração espatifado da menina. Olhou o órgão, cheirou, lambeu e por fim o jogou no chão. Fez o mesmo com o garoto, pegou seu coração e nem sequer o pôs perto do nariz. Só o tato o mostrava que aquilo também não era o que procurava.
Nada disso o abalava. Talvez porque aquele sentimento onírico já fosse rotina a ele, talvez porque essa rotina já fosse completamente ignorada por seu coração, talvez porque seu coração estivesse cortado ao meio como um pedaço de carne de terceira rodeado de moscas que é comprado naqueles açougues de periferia por uma mãe de três filhos nojentos, cachorros vira-latas nojentos, que só babam choram e pedem por comida, mas não tem comida. Por que não cala a boca desses vermes meu deus, clama a mãe, mas deus não ouve. Deus nunca ouviu a mãe, deus nunca ouviu a ninguém. Nem a ele. Nunca importaram suas preces, seu desespero, seus gritos, seu sangue derramado, suas mortes, suas camisas manchadas, seus amores perdidos, nunca importaram o calvário na terra, a cruz metálica que carregava. Nada importa. Apenas desista, abandone a esperança, cruz do mundo irreal, pare de rezar, pare de crer, para com a fé, apenas pare de EXISTIR.
...
-Será que um dia seremos felizes, G.?
17.7.09
O buraco. 1
Acordou um dia com um buraco no peito.
Começou a tatear o buraco, ver se não era mais um daqueles pesadelos diários que não o deixavam dormir, que lhe marcavam embaixo dos olhos com uma mancha roxa e que faziam as pessoas perguntarem se ele não estava doente, e ele sempre mentia, dizendo que estava ótimo (porque estava sempre doente, e também porque sabia que ninguém da repartição se importava se ele estava dormindo ou não, eles nunca se importaram, nunca iriam se importar, nem se ele abrisse a própria cabeça com uma .45 na frente de todos, sujando-os com seu pus e com seus restos, eles continuariam suas vidas e contratariam mais um maldito para fazer aquele trabalho maldito naquele maldito lugar).
Não era um pesadelo. O buraco tinha o tamanho de uma maçã, passava pelo meio de seu peito, perfurando sua coluna.Ele podia tatear seu coração pulsante, os restos da sua coluna e de suas costelas, a carne vermelha que escorria sangue e, se tivesse cinismo suficiente para uma situação daquelas, poderia passar seu braço inteiro por ele e brincar um pouco com o surrealismo daquele momento.
Sentou-se na beira da cama desarrumada, da fronha furada, do colchão encardido, e, tentando encontrar alguma explicação para o inexplicável, começou a relembrar a noite anterior: chegou exausto do trabalho miserável, comeu da sua comida miserável, dormiu na sua cama miserável para ver se sonhava com algo menos miserável, algum lugar onde ele fosse grande, onde não fosse esmagado como rotina de outros que também eram esmagados, onde fosse feliz. Não sonhou (nunca sonhou, e talvez nem pudesse mais. Talvez tivesse esquecido o que era ser feliz. Talvez nunca tivesse sido feliz). Não tinha feito nada diferente, nada excitante, nada ameaçador, apenas a sua esmagadora rotina. Entretanto, o buraco estava lá. Ou talvez por isso o buraco estava lá.
25.5.09
Poema
Meu lápis 6B:
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