2.2.11

Desculpa por nunca ter dado a você um nome.
Desculpa pelo descaso, pelo descompasso, mas eu não posso carregar seu corpo pequeno, você é leve demais. Não preciso do seu olhar opaco como prova do meu papel de pai ausente. Minhas mãos ainda estão sujas, então pare de me olhar, não adianta mais.
Eu juro que tentei, mas não posso amá-lo. Então vá, suma da minha vista e cresça, vire a pessoa que eu nunca serei. Esse é o melhor presente que posso dar: liberdade. Livre dos conceitos materiais que me prendem, faça-me ter inveja de você, faça eu me arrepender do dia que larguei sua alma leve na calçada, faça-me o vilão grotesco da sua fábula pessoal. Faça de mim o seu lixo.
E um dia, quando você não couber mais no seu casulo, eu juro que irei matá-lo.

10.8.10

17.7.10

PANDORA (α)

Eu estava tão acostumado a fazer aquele caminho que o ato de pensar só apareceu quando o tiro atingiu o meu peito. Ouvi o bang no mesmo momento que cai no chão, e pela dor meus olhos fecharam e meus ouvidos ensurdeceram, o que me impediu de ver os rostos apavorados e a correria que surgiu. De algum modo aquilo foi tão forte que eu perdi a capacidade imediata de pensar racionalmente sobre o que estava acontecendo, e então veio aquela sensação errada, aquela sensação que não era dor. Eu me senti afogando, deitado no meio da rua, completamente seco e me afogando. Eu tentava puxar o ar para meus pulmões mas nada vinha além daquela água seca que não me trazia oxigênio e aquela situação me deu um desespero gigante e horrível porque eu sabia que eu ia morrer. Eu abri os olhos e mexi as mãos para tentar chamar ajuda, para pedir por um pouco do ar de alguém, e todos estavam lá, ao meu redor, alguns chorando, alguns com cara de nojo mas a grande maioria apenas olhava. Então eu olhei para mim mesmo, para o meu peito, e vi aquela ausência vermelha de carne bem no meio do meu corpo e eu me senti tão insuportavelmente vazio que o desespero aumentou ainda mais e piorava a sensação de afundar. Não era justo eu morrer naquela hora, eu tinha tantas coisas para fazer, tantas coisas para falar e agora tudo ia ficar sepultado pela minha incompetência. Eu abri minha boca e comecei a gritar, mas só saía sangue de mim e aquilo era tão cruel e ridículo que eu tinha vergonha de mim, exposto daquele jeito para todos como um covarde que não teve coragem de viver. Do buraco no peito eu senti uma coceira misturada na dor: vários pedaços de papel começaram a sair da ferida, papéis de várias cores, a grande maioria branca e bege, ensanguentados e amassados, e nesses papéis eu conseguia reconhecer palavras, frases, com caligrafias minhas e esses papéis flutuavam em direção ao céu como pombas magras em direção a migalhas. Eu juntei toda força que ainda restava para tentar pegar aquelas folhas porque elas eram minhas, elas eram tudo de bom que eu ainda tinha mas meu braço não se movia, eu não conseguia nem mais sentir meus membros; então eu tentei levantar meu tronco, pegar as folhas com a boca como um animal, mas o ar estava tão pesado que eu não dava nem para mover a cabeça. Eu só podia ficar lá, parado, sentindo meu corpo esvaziar enquanto as folhas fugiam de mim e Deus, como aquilo era deprimente.

15.7.10

Um vez uma personagem minha disse uma coisa com a qual eu me assustei e quase acreditei que ela tinha milagrosamente criado vida e dominado sua própria existência. Era alguma coisa do tipo meus sonhos são apenas sonhos e são bons sendo apenas o que são.


Mas talvez não.

20.6.10

Tô cansado de escrever esses pós-modernismos pop e ridículos. Oblivion realmente me inspirou a escrever naquela vez, mas é idiota mencionar o texto logo no comecinho, principalmente porque é em inglês e o resto é em português. Sem contar que há tantas, inúmeras canções brasileiras que expressam o mesmo sentimento e poderiam muito bem substituir. Odeio também os títulos em inglês porque eles não fazem sentido e são apenas um placebo para minha incapacidade de derivar ideias boas fora do poço de músicas pseudodepressivas e no final não fazem sentindo e no final são apenas mais merda em cima da merda em cima da merda
Odeio olhar para tudo que eu escrevi aqui e olhar tudo que eu deixei escrever e perceber como eu enfeitei e maquiei meus textos com excessos de adjetivos e outras expressões morfológicas que eu não consigo lembrar o nome e como no final todos os meus textos são apenas gigantes travestis andando com seus pênises expostos e seios caídos, e como esses travestis imorais se acham o máximo, acreditam ser a maior expressão de revolta contra um sistema inexistente e toda vez que eu olho para essas putas travestis eu me envergonho porque elas são porcas, são nojentas, são doentes, mas o pior de tudo é toda essa fé de que elas estão bonitas de que elas estão certas e deus sabe como eu tenho a todo momento vontade de deletar toda essa merda e recomeçar, mas deus sabe o quanto essas travestis são minhas criações e representam meu passado então eu não apago porque não é mais possível apagar, e elas vão ficar sempre aqui, me humilhando e rindo de mim porque deixei de acreditar que elas faziam sentido.
...
deus, como eu odeio esses momentos que as ideias e as emoções tão fermentando e aumentando sua massa em mil dentro de você e você não consegue ou não pode escrever e você fica acordado de olhos fechados e sabe que você está errando mas foda-se, você pelo menos por aquela hora quer errar, quer errar muito  e remoer todo esse error dentro de você porque você sabe que assim que der seis horas em ponto você tem que parar com isso então vai chegando cinco e quarenta cinco e cinquenta cinco e cinquenta e cinco cinco e cinquenta e oito cinco e cinquenta e nove e seis acabou chegou a hora de viver mas você não quer viver você só quer remoer porque remoer é bom remoer é a unica coisa que você sabe fazer porque você é inútil você é um deficiente mental você é um retardado você é um animal ridiculo e grotesco grotesco fudidamente grotesco]

e eu estou cansado desculpa
mas é por isso que eu parei de escrever aqui
desculpa também pela ausência de pontos e pelos erros grosseiros, fudidamente grosseiros, não to com cabeça para eles agora to so escrevendo o que vem na minha cabeça e é como eu disse não dá tempo de pontuar vem tudo de uma vez e fica horrível mas desculpa, é a única coisa que posso fazer

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